Estratégias Legais para Contestação e o pedido de Indenização
A inclusão de um consumidor nos cadastros de inadimplentes é uma prática permitida pelo Código de Defesa do Consumidor. No entanto, a negativação torna-se um ato ilícito grave quando é resultado de falha ou erro da empresa, gerando prejuízos que afetam a honra e a capacidade creditícia docidadão em futuras transações, como empréstimos, financiamentos e até mesmo o aluguel de imóveis.
Diversas situações envolvendo o registro do nome do consumidor podem ensejar a indenização por danos morais. Estas podem ser classificadas em duas categorias recorrentes nos tribunais:
- Negativação com Base em Dívida Inexistente
Esta é a forma mais comum de negativação indevida e ocorre quando o cadastro se baseia em um débito que, de fato, não existe ou é irregular. A indenização por danos morais sempre será passível neste cenário, exceto em
situações de culpa exclusiva da vítima.
As causas para este tipo de ilicitude incluem:
Falhas na Quitação: A dívida já foi paga, mas o credor falhou na identificação desse pagamento. É vital lembrar que, após o pagamento integral e efetivo, o credor tem o prazo de 5 (cinco) dias úteis para excluir o registro da dívida,
conforme a Súmula 548 do STJ. A manutenção do cadastro após esse prazo também gera dano.
Cobranças e Serviços Não Contratados: Cobranças indevidas referentes a
serviços nunca solicitados ou a valores acima do contratado que motivaram a
negativação.
Fraudes: Inscrições decorrentes de fraudes ou golpes realizados com o CPF do consumidor, como a abertura de conta em cidade onde o consumidor nunca esteve.
- Negativação de Dívida Legítima Sem Observância de Limitações Legais
Mesmo que a dívida seja existente, a falta de atenção a determinados aspectos legais impostos pela legislação consumerista e pela jurisprudência pode gerar o dever de indenizar ao consumidor.
a) Ausência de Comunicação Prévia por Escrito:
O Art. 43, §2º, do CDC, determina que a abertura de cadastro ou registro de dados de consumo deve ser comunicada por escrito ao consumidor, quandonão solicitada por ele.
Contudo, a Súmula 359/STJ esclarece que a responsabilidade pela notificação é do órgão mantenedor do cadastro e não do credor. A ausência dessa comunicação prévia enseja a condenação por danos morais.
b) Manutenção da Inscrição Após o Prazo Máximo:
O Art. 43, §1º, do CDC, e a Súmula 323 do STJ estabelecem que os cadastros não podem conter informações negativas referentes a um período superior a cinco anos, contados a partir do vencimento da dívida. Ultrapassado este limite, o cadastro se torna ilegal e deve ser removido pelo órgão responsável, sob pena de indenização por danos morais. Esse prazo máximo de cinco anos pode ser restringido se o prazo prescricional for menor.
II. O Dano Moral In Re Ipsa: A Presunção do Prejuízo
A negativação indevida viola o direito da personalidade do consumidor, que visa garantir sua integridade moral, honra e dignidade. Ter a imagem abalada e ser rotulado como mau pagador por um erro da empresa pode gerar
constrangimento ou a perda de oportunidades de negócio.
A responsabilidade do fornecedor por esses danos é objetiva sendo que ela independe de culpa.
A jurisprudência brasileira, ratificada pelo Superior Tribunal de Justiça – STJ, reconhece a existência do dano presumido em casos de negativaçãoindevida.
Isso significa que, ao contrário da regra geral, não é necessário demonstrar de forma concreta o dano sofrido. A simples comprovação da situação que gerou o dano já é suficiente para presumir o abalo aos direitos da vítima.
Embora o dano seja presumido, é dever da pessoa lesada provar a existência da negativação. Isso deve ser feito por meio de extratos de balcão ou documentos similares dos órgãos de proteção ao crédito.
O valor da indenização é fixado com base nos princípios da razoabilidade e proporcionalidade. O STJ já considerou montantes como R$ 8.000,00 e R$15.000,00 como razoáveis e não exorbitantes em casos de inscrição indevida.
III. A Exceção Inegociável: O Entendimento da Súmula 385 do STJ
É fundamental conhecer a exceção que impede a concessão de indenizaçãopor danos morais, mesmo diante de uma negativação comprovadamente indevida: a existência de restrições legítimas prévias.
A Súmula nº 385 do STJ estabelece que: “Incabível o pagamento de indenização a título de dano moral quando já houver inscrição do nome do devedor em cadastro de proteção ao crédito”.
Neste caso, se o consumidor já possuía uma dívida devida e anterior registrada, a negativação irregular subsequente não ensejará a indenização extrapatrimonial, sendo apenas autorizada a retirada do nome do cadastro
referente à dívida indevida.
IV. Estratégia Prática: O Caminho da Contestação Judicial
Ao descobrir uma negativação indevida, o consumidor deve adotar uma postura
ativa e estratégica para maximizar suas chances de sucesso: - Provas e Medidas Administrativas
O caminho inicial é contatar a empresa credora, informando o erro e solicitando a imediata retirada dos dados.
Coleta de Provas: É indispensável registrar todas as interações. Anote números de protocolos de atendimento, datas, nome do atendente, e-mails trocados e históricos de conversas.
Comprovação do Gravame: Para ingressar com a ação, providencie o comprovante da restrição, obtido em balcão de órgãos como o CDL ou Serasa, que deve indicar o nome da empresa, CNPJ e o valor da dívida. - O Pedido Judicial e a Inversão do Ônus
O consumidor deve pleitear em juízo a declaração de inexigibilidade do débito e a condenação da Ré ao pagamento de danos morais.
Uma vez provada a existência da negativação pelo consumidor, inverte-se o ônus da prova para a parte ré. Caberá à empresa provar a relação jurídica e a legitimidade do débito que motivou a inscrição. Caso o réu não prove a origem
do débito, deverá ser condenado a indenizar e a retirar o nome do autor dos cadastros de inadimplentes.
Perda de uma Chance: Se houver um prejuízo específico, como a perda de uma oferta de imóvel ou a negativa de um financiamento, junte as provas.
Isso configura a “perda de uma chance” e auxilia na demonstração e quantificação do
dano sofrido.
Repetição do Indébito: Para o caso de cobranças irregulares que não geraram negativação, o CDC prevê, em seu Art. 42, o direito à repetição do indébito em dobro, ou seja, o valor pago indevidamente deve ser ressarcido em dobro.
A negativação indevida é um ato ilícito que, via de regra, garante a reparação por danos morais ao consumidor. Seja por falha operacional, fraude, ou desrespeito a prazos legais, o ordenamento jurídico e a jurisprudência atuam
em favor da vítima.
Crie o hábito de verificar regularmente seu CPF em órgãos como o Serasa.
Essa vigilância evita surpresas e permite que você aja rapidamente para resolver qualquer pendência, garantindo a justa compensação financeira pela dor de cabeça e constrangimento suportados.

Sob o olhar do Dr. João Victor Almeida (Advogado OAB/MG 240.027)


